O Aikido foi criado no Japão em 1942, pelo grande mestre Morihei Ueshiba. A arte
tem suas origens no Daito Riu Aikijiujitsu criado por Yoshimitsu Saburo Shinja o
sexto filho do imperador Seiwa (850-880 DC), pertencente a familia Minamoto.
A melhor maneira de entender a história do Aikido é conhecendo um pouco da vida
de seu fundador. Por isso, abaixo está disponibilizada sua biografia dividida em sete partes:
Morihei Ueshiba nasceu no dia 14 de Dezembro de 1883 em Tanabe, Província de Wakayama.
Ele foi o quarto e mais velho filho de Yoroku Ueshiba, um próspero fazendeiro, que
possuía dois hectares de terra nativa. Seu pai era um membro muito respeitado na
comunidade local, servindo como conselheiro do vilarejo por vinte anos, enquanto
sua mãe, Yuki Itokawa, vinha de uma família de senhores de terra de descendência
nobre.
Morihei formou-se pela Escola Elementar de Tanabe, e foi admitido na recém estabelecida
Escola Colegial do Distrito de Tanabe, tendo na época 13 anos de idade. Entretanto,
deixou o colegial antes mesmo de se formar, indo para o Instituto Yoshida Abacus.
Obtendo seu diploma, conseguiu um emprego no Escritório de Impostos de Tanabe, onde
um de seus trabalhos incluía a avaliação de impostos prediais e territoriais.
Morihei se demitiu de seu emprego no Escritório de Impostos em 1902, após se juntar
a um movimento popular contra a nova legislação pesqueira, indo a Tóquio com o objetivo
de recomeçar novamente como um homem de negócios. Por algum tempo, trabalhou como
um funcionário do distrito comercial de Nihombashi, morando no local de seu emprego,
antes de iniciar seu negócio próprio, uma compania de suprimentos para escritório
e escolas, a Ueshiba Trading.
O mais importante é que durante essa primeira estadia em Tóquio, é que Morihei começou
seus estudo de artes marciais, aprendendo os tradicionais ju-jutsu e kenjutsu. Mais
tarde, no mesmo ano, ao se contagiar com beribéri e forcado a sair de Tóquio. Logo
após seu retorno a Tanabe, casou-se com Hatsu Itokawa (nascida em 1881), a quem
conhecia desde sua infância.
Durante os períodos livres da vida militar, Morihei continuou a persistir em seus
interesses nas artes marciais, ingressando no dojô de Masakatsu Nakai em Sakai,
onde aprendeu Yagyú-ryu ju-jutsu na escola Gotô.
Em 1907 Morihei foi dispensado do exército e voltou a Tanabe, trabalhando na fazenda
da família e participando na vida política da vila, tornando-se o líder da Associação
dos Jovens local. Durante esse período, seu pai propôs ao judóka Kiyoichi Takagi,
então em visita à Tanabe, a ser professor de Morihei, transformando o depósito da
fazenda em dojô. Foi então que Morihei aprendeu o estilo Kodokan de judô. Continuou
também a freqüentar o dojô de Nakai, recebendo o certificado da escola Gotô.
Morihei continuou em Tanabe pelos próximos três anos, envolvendo-se em diversas
atividades locais. Em 1910 (o ano em que sua filha mais velha, Matsuko, nasceu),
Morihei interessou-se por um plano governamental para povoar a ilha de Hokkaido,
situada ao norte do Japão. Decidiu então formar um grupo popular, requisitando voluntários
da Associação dos Jovens local.
Tornou-se líder do grupo Kinshú, consistindo de aproximadamente cinqüenta e quatro
famílias (mais de oitenta pessoas) e, em Marco de 1912 partiram de Tanabe em direção
a Hokkaido. Chegaram em Maio, estabelecendo-se em Shirataki, próximo ao vilarejo
de Yobetsu, local escolhido por Morihei em uma visita anterior à ilha.
Nessa área, onde ainda hoje o vilarejo de Shirataki perdura, era então um terreno
selvagem o que forcou aos colonizadores ter que lutar muito duro contra as condições
dificílimas de clima e solo até conseguir deixá-los em condições para cultivo.
Apesar de tudo, o grupo Kinshu obteve sucesso implementando diversas atividades,
como o cultivo de menta, criação de cavalos, produção de leite e também abertura
de uma indústria madeireira. Morihei fez mais do que o possível para assegurar o
sucesso de suas empreitadas, e iniciou vários outros projetos, incluindo a construção
de uma rua comercial em Shirataki, melhoramentos nas moradias e a fundação de uma
escola primária.
Em Hokaido Morihei Ueshiba encontra o mestre Sokaku Takeda do Daito-ryu jiujutsu.
Este mestre era um homem pequeno de grande força, bastante rude e severo, de difícil
convivência.
Mestre Takeda viu em O-Sensei um aluno excepcional e de grande autocontrole para
receber os ensinamentos deste estilo de jiujutsu que só era transmitido muito particularmente.
Não foram fáceis os tempos de aprendizagem! Ueshiba submeteu-se ao severo autoritarismo
do professor, de corpo e alma. As aulas não tinham horário marcado, podiam ocorrer
a qualquer hora do dia ou da noite, tinha que cortar lenha, preparar as refeições
e os banhos do professor Takeda. Além disso, conta-se que Ueshiba pagava 300 a 400
yens por cada técnica ensinada, o que era um valor considerável naqueles dias. Assim
mesmo, os dias gastos no aprendizado eram irregulares.
Em cinco anos o Mestre Takeda somente dedicou cinco de cada 100 dias para o ensino.
O resto do tempo o aluno tinha que praticar sozinho. Com 33 anos de idade o Mestre
Ueshiba recebeu o título de mestre em Dayto-ryu jiujutsu. Algumas técnicas básicas
do Aikido Moderno derivam deste aprendizado efetuado pelo Professor Ueshiba. Todavia,
as técnicas mais antigas remontam a uns setecentos anos.
O Dayto-Ryu data da era Kamakura (1187-1333) e acredita-se que foi desenvolvido
por Minamoto Yoshimitsu que transmitiu à sua família e foi passando de geração em
geração até que com o correr dos tempos chegou ao clã Takeda.
Foi com base nesse legado que o mestre Ueshiba transformou, desenvolveu e criou
as técnicas para o AIKIDO atual, substituindo o termo "jutsu" (arte para a guerra)
pelo de "do" (caminho espiritual), elevando-o de uma arte marcial para um princípio
superior.
Em 1918, o Professor Ueshiba recebeu a notícia que seu pai estava muito doente.
Doou seus bens para o Mestre Takeda e foi embora da província de Shirataki. Deixou
para trás a terra que cultivou, a vila que ajudou a construir, os amigos, o prestígio
social e as propriedades. Portanto, o Professor Ueshiba retornava nas mesmas condições
em que chegara: sem dinheiro, sem patrimônio, porém com o espírito revigorado.
No trajeto de trem até casa de seu pai, soube que o líder da nova e crescente religião
Omoto-kyo, Onisaburo Deguchi, famoso por suas técnicas de meditação chinkon kishin
(acalmar o espírito e retornar ao divino), residia nas proximidades de Ayabe. Morihei
decidiu visitá-lo, continuando em Ayabe até 28 de Dezembro. Fez um pedido a Onisaburo
para que orasse por seu pai, mas Onisaburo respondeu, "Seu pai está bem como está".
Esse encontro com Reverendo Deguchi marcou profundamente o Morihei. Desde criança
O-Sensei teve extraordinário interesse pelo estudo espiritual, que aumentava à medida
que adquiria maior compreensão das coisas. Aos sete anos já tinha estudado com o
monge Fujimoto; com dez anos estudara Zen Budismo no templo Homanji.
Depois do encontro com Deguchi, rumou para casa de seu pai. Yoroku Ueshiba veio
a falecer em 2 de Janeiro de 1920, com a idade de 76 anos. Sua morte foi de grande
impacto em Morihei e, após uma fase de instabilidade emocional, decidiu mudar-se
para Ayabe, em busca de uma vida mais espiritual, sob supervisão de Onisaburo Deguchi.
Conseguiu uma casa, atrás da escola primária, entre os locais sagrados da Omoto-kyo,
e nele viveu durante seus próximos oito anos, até mudar-se para Tokyo, em 1928.
Durante todo esse tempo, gozou de confiança absoluta de Onisaburo, tomando parte
em várias práticas espirituais da seita. Também com o apoio de Onisaburo, Morihei
converteu parte de sua casa em um dojô, com dezoito tatamis, e abriu a Academia
Ueshiba, onde ensinou cursos introdutórios de artes marciais, na maior parte para
seguidores da seita Omoto-kyo.
Infelizmente, o primeiro ano de Morihei em Ayabe foi marcado por mais tragédias
pessoais: perdeu seus dois filhos por doença; Takemori faleceu em Agosto, com três
anos de idade e, em Setembro, seu segundo filho Kuniharu veio a falecer, com um
ano de idade.
Morihei, com a idade de trinta e oito anos, em frente ao seu primeiro dojô. Em 1920,
Morihei e sua família mudaram-se para a sede da seita Omoto-kyo em Ayabe (próximo
a Kyoto). Lá a Academia Ueshiba foi fundada, com Morihei ensinando Daitô-ryu aiki
ju-justu a seguidores da Omoto-kyo.
Durante toda a sua vida, Morihei sempre teve uma paixão pelo campo. Ele acreditava
que havia uma afinidade especial entre budô e agricultura, duas atividades que mantém
a vida e invocam uma vida limpa e com pensamentos positivos.
No ano seguinte a mudança de Morihei para Ayabe, os ensinamentos fornecidos na Academia
Ueshiba aumentaram gradualmente, tanto em habilidade e alcance como em espiritualidade,
e os rumores de que havia um excepcional mestre em artes marciais morando em Ayabe,
começaram a surgir. O número de não seguidores da Omoto-kyo ingressando na Academia
Ueshiba começou a crescer, e muitos marinheiros da base naval de Maizuru que ficava
nas proximidades, começaram a treinar lá.
Em 11 de Fevereiro de 1921, as autoridades repentinamente invadiram a seita, o que
ficou conhecido como o Primeiro Incidente Omoto, prendendo várias pessoas, incluindo
Onisaburo. Por muita sorte, o incidente não afetou em nada a Academia Ueshiba. Mil
novecentos e vinte e um foi também o ano de meu nascimento.
Durante os dois anos seguintes, Morihei tentou ajudar Onisaburo, que havia sido
libertado em liberdade condicional, a recomeçar a construir a seita Omoto-kyo.
Encabeçou a administração por novecentos tsubo de terra em Tennodaira, na qual trabalhou
enquanto continuava ensinando na Academia Ueshiba. Dessa maneira, foi capaz de compreender
em seu dia a dia, a existência de uma união essencial entre as artes marciais e
a agricultura, algo que estava dentro de seu coração e se tornaria um tema constante
em toda sua vida.
Por volta dessa época, a performance de Morihei nas artes marciais começaram gradualmente
ter um caráter mais espiritual, na medida em que se envolveu cada vez mais nos estudos
do kotodama. Isso o levou pouco a pouco a se libertar das praticas convencionais
do Yagyu-ryu e Daito-ryu ju-jutsu, desenvolvendo seu estilo próprio, usando e aplicando
os princípios e técnicas em conjunto, para quebrar as barreiras entre mente, espírito
e corpo. Em 1922, essa aproximação foi chamado de "aiki-bujutsu", mais conhecida
pelo público em geral como Ueshiba-ryu aiki-bujutsu.
Em 1924, Morihei embarcou em uma aventura para dar a prova crucial de seu desenvolvimento
espiritual. No dia 13 de Fevereiro, partiu secretamente de Ayabe com Onisaburo,
em direção à Manchúria e Mongólia, numa busca de um local sagrado, onde pudessem
estabelecer um novo governo mundial baseado em conduta e princípios religiosos.
No dia 15, chegaram Mukden, onde se encontraram com Lu Chang K'uei, um famoso senhor
de térreas na Manchúria. Juntamente com Lu, lideraram o Exército Autônomo do Noroeste
(também conhecido como o Exercito para a Independência da Mongolia), no interior
do país. Nessa época, foi dado a Morihei o nome chinês de Wang Shou Kao. Entretanto,
essa expedição foi sabotada; foram vítimas de um complô armado por um outro senhor
de terras, chamado Chang Tso Lin, e quando chegaram à Baian Dalai, em 20 de Junho,
se encontraram cercados pelo exército Chinês, que esperava para prendê-los. Morihei,
Onisaburo e outros quatro foram sentenciados à morte. Afortunadamente, momentos
antes da execução, um membro do Consulado do Japão interveio, assegurando sua liberação
e retorno seguro e imediato ao Japão.
Morihei retornou à sua vida normal, unindo a prática de artes marciais e trabalho
na fazenda, ensinando na Academia Ueshiba e trabalhando na fazenda em Tennodaira.
Interessou-se por sojutsu (técnicas com lança) e continuou a praticar intensamente
técnicas com espadas e ju-jutsu. Claramente, as coisas já não eram mais as mesmas.
A expedição à Manchúria e Mongólia o afetou profundamente, particularmente.
Em 1924, Morihei acompanhou Onisaburo Deguchi na Grande Aventura da Mongólia. Com
a esperança de criar um novo "paraíso na Terra" na Mongólia, Onisaburo e seu grupo
conseguiram chegar a fronteira da região remota da Mongólia, onde foram aprisionados
por um senhor de terras Chinês, que os ameaçou a serem executados.
Morihei foi profundamente afetado após deparar várias vezes com a morte durante
sua a Grande Aventura da Mongólia, e ao retornar ao Japão, intensificou sua busca
pelo verdadeiro significado do Budô. Freqüentemente se isolava em montanhas, para
engajar na disciplina ascética/asceta, e com a idade de quarenta e dois anos, Morihei
atravessou uma fase de iluminação o que o tornou invencível como artista marcial.
Por suas experiências encarando a morte sob fogo, onde descobriu que conseguia ver
os rastros luminosos dos tiros, descobrindo o caminho de onde vinham. A descoberta
deste sentido de intuição foi uma imensa experiência para Morihei que, após retornar
ao Japão, freqüentemente se encontrou em situações onde sentiu a mesma manifestação
dessa forca espiritual.
Na primavera de 1925, Morihei se encontrou com um oficial naval e mestre de kendô.
Aceitou o desafio do oficial e o derrotou sem lutar, conseguindo simplesmente sentir
de qual direção os ataques estavam vindo antes que o oficial pudesse tocá-lo com
o bastão.
Imediatamente após esse encontro, foi lavar-se num poço próximo, onde sentiu uma
serenidade completa em seu corpo e espírito. De repente sentiu que estava banhando-se
em uma luz dourada que vinha do céu. Foi uma experiência sem igual para ele, uma
revelação onde sentiu-se renascer, transformando seu corpo e mente em ouro. Ao mesmo
tempo a união de seu ser com o universo tornou-se clara para ele, compreendendo
assim um por um todos os outros princípios filosóficos nos quais o Aikido se baseia.
Eis aqui, em suas próprias palavras, o acontecido:
"Tive a sensação de que o Universo inteiro entrava em vibração e uma energia de
cor dourada se elevava da terra e se enrolava como um novelo no meu corpo, transformando-o
em dourado. Nesse instante meu corpo e meu espírito tiveram uma clara consciência
do pensamento de Deus, o criador do Universo".
Naquela ocasião percebeu que o mundo inteiro era seu lar e de que o sol, a lua e
as estrelas lhe pertenciam, libertando-se, assim, de todo o desejo de poder, fama
e riqueza. Essa experiência ocorreu quando Ueshiba tinha 42 anos, num dia de primavera
do ano de 1925. A partir de então, quando se levantava ao alvorecer, rendia homenagem
à Natureza e fazia esta oração:
"Este meu coração está agora outra vez novo e vou oferecê-lo aos meus irmãos em
vida". Para Ueshiba, o Budo não consiste em abater o adversário pela força, nem
tampouco é um instrumento para conduzir o mundo à destruição pelas armas. O verdadeiro
Budo consiste em aceitar o espírito do universo, em manter a paz no mundo, em produzir,
proteger e cultivar convenientemente todas as coisas da natureza.
Durante um período de meditação de Ueshiba começam surgir perguntas tais como: "De
que serve vencer aos outros, seja com uma técnica ou outra?"; "Se hoje ganhei, amanhã
ou mais tarde perderei. O vencedor de hoje é o perdedor de amanhã."; "O campeão
forte de hoje, amanhã se defrontará com um adversário mais jovem e perderá. Isto
significa, então, que a vitória é algo relativo! Será que existe a vitória absoluta?
Que importância tem para cada um?".
Isolado nas montanhas, longe do mundo cotidiano, vivendo como um eremita, praticava
sozinho com o boken (espada de madeira), desferindo golpes no ar e ao mesmo tempo
se perguntava: "O Que é uma arte marcial?". Foi assim que entendeu ser melhor dar
o nome a sua criação de aiki-budô ao invés de aiki-bujutsu ( A substituição de do
no local de jutsu, muda o sentido da arte marcial aiki para o caminho marcial de
aiki.).
Com maior divulgação, o aiki-budô atraiu um grande número de seguidores ilustres,
incluindo o Almirante Isamu Takeshita. No outono de 1925, Morihei foi convidado
a visitar o Almirante em Tóquio. Hospedou-se na residência do ex-Primeiro Ministro,
Gombei Yamamoto, onde deu uma demonstração de arte marcial para várias autoridades,
deixando a todos muito impressionados. Morihei também ensinou artes marciais por
vinte e um dias no Palácio da Coroa do Principado.
A convite do Almirante Takeshita, retornou a Tóquio na primavera de 1926. Deu aulas
na Côrte Imperial e no Ministério do Funcionalismo Imperial, treinando tanto pessoas
da marinha, exército e pessoas que trabalhavam com empresas no mundo das finanças.
A permanência de Morihei em Tóquio foi por demais prolongada, mas no verão daquele
mesmo ano, adoeceu-se com uma desordem intestinal e foi forçado a retornar a Ayabe
para repousar.
Em Fevereiro de 1927, ao receber novo convite do Almirante Takeshita, sentiu que
não teria outra alternativa senão deixar Ayabe pela terceira vez. Com a benção de
Onisaburo, mudou-se permanentemente para Tóquio, canalizando todas as suas energias
para estabelecer-se como um mestre em artes marciais na capital.
Após dois anos em acomodações temporárias, mudou-se para uma casa próxima ao Templo
de Sengaku em Kuruma-chô, onde converteu dois quartos de oito tatamis cada, em um
dojô. Seus alunos incluíam Isamu Fujita, Shôyo Matsui e Kaisan Nakazato e também
o ator de kabuki Kikugorô Ennosuke VI.
Em 1930, ao conseguir uma casa maior nos subúrbios de Ushigome, Wakamatsu-chô, iniciou
a construção de seu novo dojô. Em Outubro de 1930, enquanto os trabalhos estavam
começando, instalou um dojô temporário em Mejirodai, onde recebeu a visita de Jigoro
Kano, o fundador do judô e chefe do Kodokan. Kano fico impressionado pelas técnicas
de Morihei, elogiando-o muito e dizendo, "Esse é meu budô ideal". Kano enviou mais
tarde, dois de seus alunos, Jorô Takeda e Minoru Mochizuki, a fim de serem treinados
por Morihei.
Outra visita inesquecível foi em 1930, do Major General Makoto Miura. O General,
incrédulo sobre o novo budô criado por Morihei, visitou o novo dojô com o objetivo
único de derrotá-lo. Morihei superou completamente a expectativa de Miura, que acabou
inscrevendo-se como aluno na mesma hora. Logo em seguida, a pedido do mesmo Major-General,
Morihei tornou-se instrutor na Academia Militar de Toyama. Em Abril de 1931, um
novo aiki-budô dojô em grande escala com oitenta tatamis, inaugurado como Kobukan,
foi terminado em Wakamatsu-chô, no mesmo local onde se localiza o dojô principal
nos dias de hoje.
Muitos alunos se matricularam, incluindo Hisao Kamata, Hajime Iwata, Kaoru Funabashi,
Tsutomu Yugawa e Rinjiro Shirata e, pelos próximos dez anos, o aiki-budô teve sua
primeira fase dourada. Ao mesmo tempo, o Kobukan era popularmente conhecido como
o "dojô do inferno", pela intensidade extraordinária de treinos que aconteciam ali.
Os próximos dez anos foram extremamente movimentados para Morihei. Agora já não
era instrutor somente do Kobukan, mas em muitos outros dojô abertos em Tóquio e
Osaka. O dojô principal era o Otsuka Dojô, em Koishikawa (patrocinado por Seiji
Noma, chefe administrativo do Kobukan), o Fujimi-chô Dojô, em Iidabashi e, em Osaka
o Sonezaki Dojô, o Suida Dojô e o Chausuyama Dojô. Os ushi-deshi (estudantes que
moravam no dojô) mais destacados nesta época eram Shiguemi Yonekawa, Zenzaburo Akazawa,
Gozo Shioda e Tetsumi Hoshi.
Sob recomendação de um dos seguidores, Kenji Tomita, Chefe da Polícia da Prefeitura
de Osaka e mais tarde secretário chefe do gabinete do Governador da Prefeitura de
Nagano, Morihei também iniciou cursos nas estações de polícia na área de Osaka.
Ao mesmo tempo, envolveu-se cada vez mais dando aulas no Jornal de Asahi em Osaka,
e através do Clube Industrial do Japão, teve muitas oportunidades de ensinar pessoas
da área de finanças.
Em 1932, a Associação para Promover as Artes Marciais Japonesas foi fundada, e em
1933 Morihei tornou-se seu presidente. Em Maio de 1933, uma academia de treino com
horário integral, chamada dojô Takeda, foi montada na Prefeitura de Hyogo. Dúzias
de estudantes se mudaram para lá, colocando em prática o ideal de Morihei, unindo
artes marciais com agricultura.
Por volta de 1935, Morihei se tornou muito famoso em todo o mundo das artes marciais.
Mais ainda por seu aprendizado e domínio de várias artes marciais Japonesas, virou
alvo da atenção pública geral pela notável natureza de sua criação, "a união do
espírito, da mente e do corpo" em aiki, previamente chamada de aiki-budô. Durante
esse período. Morihei estava praticando kendô incessantemente no Dojô Kobukan e
vários dos praticantes de kendô freqüentavam seu dojô, incluindo Kiyoshi Nakakura,
que mais tarde se tornaria genro de Morihei.
Em Setembro de 1939, Morihei foi convidado a ir à Manchúria, para participar de
uma exibição de artes marciais. Lá enfrentou o ex-lutador de Sumô Tenryu, imobilizando-o
com um dedo. Morihei continuou suas visitas à Manchúria mesmo após o início da Guerra
do Pacífico, sendo conselheiro em várias instituições, incluindo a Universidade
de Kenkoku, com a qual se envolveu imensamente.
Sua última visita à Manchúria, foi em 1942, quando participou das comemorações pelo
décimo aniversário da fundação de Manchukuo, estado patrocinado pelo Japão, sob
convite da Grande Associação de Artes Marciais, dando uma demonstração de artes
marciais, contando com a presença do Imperador Pu'Yi.
Em 30 de Abril de 1940, foi concedido ao Kobukan o status de fundação, incorporada
ao Ministério da Saúde e Previdência. O primeiro presidente da fundação foi o Almirante
Isamu Takeshita. No mesmo ano, a academia policial em que Morihei dava cursos, adotou
o aiki-budô como uma disciplina curricular oficial. Também em 1940, o aiki-budô
foi incorporado na Butokukai (um órgão governamental unindo todas as artes marciais
em uma só organização). Morihei nomeou Minoru Hirai para representar e dirigir o
Kobukan no Setor Aiki do Butokukai.
Com o início da Guerra do Pacífico, um após o outro, os estudantes do dojô de Tóquio
foram enviados ao front.
Em reação a natureza das novas mudanças de última hora, feitas na emergência, reduzindo
o Aikido a apenas um setor do Butokukai, Morihei restabeleceu as bases da organização
do Aikido na Prefeitura de Ibaragi a fim de preservar o espírito do budô, que havia
sido criado para as futuras gerações. Ao me encarregar do dojô de Wakamatsu-chô,
Morihei mudou-se para Iwama com sua esposa, vivendo modestamente em um depósito
convertido em residência até após o final da guerra.
Em Iwama, Morihei iniciou a construção do que ele chamou ubuya (sala de nascimento),
ou local secreto, sagrado do aiki-budô: um complexo incluindo um relicário Aiki
e um dojô ao ar livre. O local sagrado do Aiki, onde existem desenhos magníficos
entalhados em madeira, foi completado em 1944; o Aiki Dojô, agora conhecido como
o Dojô de Ibaragi Anexo do Santuário Aiki, foi completado em 1945, pouco antes do
final da guerra. Quarenta e três deuses são homenageados no Santuário Aiki como
deuses guardiões do Aikido. Morihei planejou ele mesmo todas as disposições e limites
do Santuário Aiki, seguindo os princípios do kotodama.
Nos estágios iniciais da Segunda Guerra Mundial, os conselhos de Morihei foram muito
procurados por líderes militares e primeiro ministros, mas logo os massacres e carnificinas
o deixaram emocionalmente e fisicamente doente. Em 1942, Morihei repentinamente
desligou-se de todas as suas atividades militares e retirou-se com sua esposa para
uma pequena cabana nas florestas de Iwama. Ali trabalhou na fazenda, iniciou a construção
do Santuário Aiki. Em 1942, durante o período mais sombrio da história humana, Morihei
foi levado a chamar o sistema de sua criação de aikido, "O Caminho da Harmonia e
Amor".
Sua integridade, segue a lei dos três princípios universais, isto é, o triângulo,
o círculo e o quadrado, símbolos dos exercícios de respiração, nos estudos do kotodama.
"Quando o triângulo, o círculo e o quadrado são unidos em uma rotação esférica,
o resultado é um estado de perfeita clareza. Essa é a base do aikido", explicou
Morihei.
Durante o período da guerra, lutou muito para preservar o Dojô Kobukan, apesar de
a situação piorar cada vez mais e dos bombardeios constantes em Tóquio, pela Forca
Aérea dos Estados Unidos. O dojô escapou ileso, mas após a guerra foi usado como
abrigo para mais de trinta famílias de desabrigados, o que impossibilitava a continuação
das aulas no local. Por essa razão, o quartel general do aikido foi transferido
para Iwama, onde Morihei continuava a viver pacificamente, trabalhando na fazenda
e ensinando jovens das áreas vizinhas.
Com o final da guerra, as artes marciais sofreram um declínio por algum tempo, fazendo
com que a existência do aikido no futuro, fosse duvidosa. No entanto Morihei tinha
muita fé no novo aikido, o que nos fez trabalhar todos juntos para colocá-lo de
volta em seu devido local no Japão pós-guerra.
Quando parecia que a confusão prevalecia em conseqüência dos desastres deixados
pela guerra, foi decidido mudar novamente o quartel general do aikido para Tóquio.
No dia 9 de Fevereiro de 1948, o Ministério da Educação deu permissão para o restabelecimento
do Aikikai, com reservas. Durante esse tempo, o dojô principal em Tóquio era chamado
o Dojô Ueshiba e Quartel General Mundial do Aikido.
Após o estabelecimento do Aikikai, foi me dada a responsabilidade de consolidar
a organização já existente e planejar seu desenvolvimento no futuro. Durante esse
tempo, Morihei continuou em Iwama, absorvido na contemplação da prática das artes
marciais.
De 1950 em diante, Morihei reiniciou suas viagens pelo Japão em resposta a convites
para ensinar, dar cursos e demonstrações. Ao chegar a idade de 70 anos, sua técnica
soberba fluía progressivamente de sua imensidão espiritual, em contraste com sua
ferocidade e forca física que o caracterizavam em seus anos anteriores. Agora empregava
mais a natureza do amor do aikido. (O primeiro caractere "ai", que quer dizer harmonia,
é lido da mesma forma do caractere que quer dizer amor. Em seus últimos anos, Morihei
sempre enfatizou a equivalência desses dois significados).
Em 1954, o quartel general do aikido foi mudado para Tóquio, e ao dojô de Tóquio
foi dado o título oficial de Fundação Aikikai: o Hombu Dojô do Aikido. Em Setembro
de 1956, o Aikikai deu pela primeira vez em público uma demonstração de artes marciais
desde o final da guerra, na cobertura da loja de departamentos Takashimaya, em Nihombashi,
Tóquio. A apresentação durou cinco dias, causando uma ótima impressão a todos as
autoridades estrangeiras presentes. Morihei foi sempre duramente contra a dar demonstrações
em público, mas compreendeu que o Japão entrara em uma nova era e acabou por consentir,
a fim de levar o aikido mais adiante.
Com o estabelecimento do aikido e por se tornar popular, o número de estudantes
em todo o mundo aumentou rapidamente. Mesmo no Japão, novos dojo eram abertos por
todo o país, e o aikido foi difundido nas universidades, órgãos do governo e companhias,
anunciando sua segunda era de ouro. Conforme envelhecia, Morihei tornou-se menos
ativo na direção do Aikikai, deixando-me encarregado da manutenção e instrução do
Hombu Dojô. Mesmo assim, continuava a dar demonstrações, e em Janeiro de 1960, NTV
transmitiu "O Mestre do Aikido", um programa que capturava as técnicas do fundador
em filme.
Em 14 de Maio de 1960, uma demonstração de Aikido foi patrocinada pelo Aikikai em
Shinjuku, Tóquio. Nessa ocasião, Morihei causou um enorme efeito em todos os espectadores,
com uma apresentação chamada de "A Essência do Aikido".
Mais tarde, no mesmo ano, a Morihei, juntamente com Yosaburo Uno, um décimo dan
de kyudo, foi dado o Prêmio Shijuhoshô, pelo Imperador Hirohito. Somente a três
pessoas do mundo das artes marciais de todo o mundo, foi concedido esse prêmio antes:
ao mestre de judô Kyuzo Mifune e aos mestres de kendô, Kinnosuke Ogawa e Seiji Mochida.
No dia 28 de Fevereiro de 1961, Morihei viajou aos Estados Unidos, convidado pelo
Aikikai do Hawaii. Durante essa visita, o fundador declarou o seguinte:
Vim ao Hawaii para consolidar uma "ponte prateada". Até hoje fiquei no Japão, construindo
uma "ponte dourada" para unir o Japão, mas de agora em diante meu desejo é construir
uma ponte para juntar diferentes países do mundo, através da harmonia e amor contidos
no aikido. Penso que o aiki, produto das artes marciais, pode unir a todas as pessoas
do mundo em harmonia, no verdadeiro espírito do budô, abraçando a todo o mundo em
um amor único e igual.
No dia 7 de agosto de 1962, um grande festival foi celebrado no Santuário Aiki em
Iwama, para festejar o sexagésimo aniversário de Morihei como praticante das artes
marciais e, em 1964, recebeu um prêmio especial do Imperador Hirohito, em reconhecimento
a sua contribuição para as artes marciais.
A cerimônia do início para a construção do novo Hombu Dojô em Tóquio foi festejada
em 14 de Marco de 1967. No mesmo dia, Morihei celebrou a primeira cerimônia para
a colheita do ano novo em Iwama. Em 25 de Dezembro do mesmo ano, o novo dojo, um
prédio moderno com três andares feito com concreto, foi completado. Um dos quartos
foi usado pelo fundador como dormitório e local de estudo, e seu quarto é conhecido
como o Quarto dos Materiais do Fundador.
Em 12 de Janeiro de 1968, uma cerimônia comemorativa foi dada em honra do final
da obra do novo Hombu Dojô, e Morihei falou sobre a importância da essência das
técnicas do aikido. Mais tarde nesse ano, Morihei daria a sua última demonstração
de aikido, no Kokaido em Hibiya, em homenagem ao término da construção do novo prédio.
No dia 15 de Janeiro de 1969, Morihei participou das comemorações do ano novo no
Hombu Dojô. Mesmo parecendo estar com saúde impecável, sua condição física deteriorou-se
rapidamente, vindo a falecer pacificamente em 26 de Abril de 1969, às 17:00hs. Uma
vigília foi mantida no Hombu Dojô no dia 1º de Maio, começando às 19:10 e no mesmo
dia, foi consagrado ao fundador um prêmio póstumo pelo Imperador Hirohito. Suas
cinzas foram depositadas no cemitério em Tanabe, no templo da família Ueshiba e
mechas do cabelo do fundador foram santificadas no Santuário Aiki em Iwama, no cemitério
da família Ueshiba em Ayabe e no Grande Santuário de Kumano.
Kisshômaru Ueshiba foi eleito para suceder seu pai como o Aiki Dôshu, por decisão
unânime do Aikikai em 14 de Junho de 1970 cuja atuação importante fez com que o
Aikido fosse difundido por todo o mundo. 29 anos depois, em 04 de janeiro de 1999
falece deixando como chefe do Hombu dojo seu filho Moriteru.